quarta-feira, 28 de maio de 2014


Bastava te dizer, amiúde, que sonhei contigo e quis muito deitar no teu peito frio e recitar quintana e cecília e chorar como uma criança que nunca viu o paraíso. E te contar como passei meus dias tempestivos e como a árvore tem ficado à merce da solidão e que o céu parece não enxergar quando eu choro, caladinho, o amor que eu não recebi. Bastava te sussurrar ao ouvido “eu te amo eu te amo eu te amo” e desejar, fortemente, que o sol irradiasse nosso sexo e nossas vidas e nossos pecados, mesmo que não fossem para nós.
E te recitar drummond e te cantar marcelo camelo e te beijar como se o mundo não fosse feito de guerras e como se não houvesse amanhã. 

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Sob teus olhos, a lua

sabe o que acontece, coração? meus amigos me abandonaram, todos. E a chuva tem dito que meu corpo logo logo desmaia e que ninguém lerá meus batimentos encurtados pelo tempo. eu já nem acredito mais nos búzios e acho que tudo não passa de sorte ou azar. você lê as estrelas? tem todas teu nome chorando por mim. tô tão cansado também. eu queria arrancar meus braços porque assim me privaria de escrever sobre como é torturante, mesmo com amor na vida, viver. eu vou vivendo sem olhar pra baixo pois se olho, me jogo. por isso nunca visitei sacadas de apartamentos. eu me suicidaria sem nem pensar. eu não pensaria em você. nem em como eu amo quando os espaços dizem por nós. tô tão feliz mas tão triste. como numa música de elis regina que eu ponho pra tocar pra saber do teu espírito e da tua alma. você conta o tempo? às vezes eu paro e observo que ele está matando-me aos pouquinhos, como se soubesse de minhas fraquezas e esfregasse na minha cara um pouco de perdão. tenho mania de achar tristeza nas coisas, mas não é só isso. há um desequilíbrio em mim, percebe? quando te falo coisas bonitas é porque preciso crer nelas também e acreditar que seja possível toda essa liberdade que eu prego como dom mas que não possuo nenhum pouco.
mas quando te digo “eu te amo” é porque eu procuro bater asas e me aninhar em algum resquício da saudade que está entre nós… você já olhou as estrelas hoje?

domingo, 17 de março de 2013

If I Ain't Got You


eu poderia te contar como você me dói quando a madrugada chega dizendo coisas e abraçando coisas e ferindo e socando. porque o frio só é frio quando há a sua ausência estampada como um gosto que eu nunca provei. só é sozinho quando não há o corpo e consequentemente o toque. eu poderia te contar como os pontos e os sinais gráficos não me fazem sentido mas você taparia os ouvidos e diria que tanto faz. porque o silêncio é inaudível, como os tiros onde ninguém ouviu por falta de apelo à vida. e se eu disser que eu chorei agora, por mim e por você, as coisas - a madrugada como objeto da coisa - mudariam? eu te amei até onde pude.
mas como sempre, não nos foi suficiente.

à uma da manhã, eu te espero:

"Você nunca compreendeu que eu dei tudo o que não tive por um amor que, na verdade, nunca existirá. O mundo cada vez mais apressado, o metrô ainda mais cheio, o pessoal da faculdade preocupado com a festa em que a menina pegou quatro e ainda desejou outros dez e eu só desejando que, no final do meu dia infernal, tudo, absolutamente tudo acabe bem. É difícil fazer a rotina quando você não está, quando tudo me lembra a ausência que nós fomos, quando tudo me diz que não tivemos nada além da aparência de ser feliz. Como eu gostaria de ser livre e poder dizer o quanto odeio a minha vida e como eu a odeio ainda mais por não conter você, por não abraçar seu corpo, por não delimitar o teu sentimento com o meu. É horrível a sensação de solidão quando muitos te abraçam e pouquíssimos te tocam e você chora, baixinho, como quem não aguenta mais. Foi por isso que hoje eu não quis ficar lá, com eles, eu fugi e voltei pra casa com a desculpa da dor. De certo modo foi dor sim, foi dor e mágoa, e foi também um acúmulo de ansiedades e não-realizações de que é feito os meus dias vazios e sós. O computador, meus livros, minhas músicas preferidas, os textos que leio/escrevo, a vontade de te mandar uma mensagem em off, o desejo de que, por algum milagre, você volte e seja você, como foi no começo, quando eu acreditei que você era diferente de tantos outros que conheci. Eu sempre oro, quase como sussurrando pra que deus me perdoe por ser tão fraco e tão auto-suicida, por gostar tanto de você a ponto de quase acabar com tudo, como naquela noite de ano novo que de novo só havia os números. Eu acho que a minha vida está um grande oco que nem eu mesmo sei dimensionar e eu só sei que, quando chega esse horário, essa madrugada doída e fria, eu sei que você existe pra mim como nunca antes e é a dor mais forte que eu posso sentir. Eu sei que é agora que vou chorar por lembrar do que você era, e no que você se tornou. (mas eu te amo, mesmo assim, eu te amo)"

sábado, 16 de março de 2013

Cora, coralina

"além do mais, eu sou este imperceptível que beira seus olhos enquanto a morte lhe dá um beijo tácito e sútil, assim como o vento que passa não é lembrado. além do mais, a poesia, que é esquecida entre a vala da sua casa e a esquina da minha casa, está nos pequenos detalhes que a vida não nos dá. porque é preciso que o olho expanda a vista e enxerguemos além de. além disso. além daquilo. enxerga-se com o coração quem olha o céu e deixa chorar. aquele que não perde o tato consigo mesmo, porque é preciso desvendar-de para descobrir-se, e você, você nunca me descobriu, nunca, nunca me ousou (meu coração é terra que ninguém vê)"